Final de “A Odisseia” renova o mito e expõe um herói destruído pela própria astúcia

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O desfecho do novo longa “A Odisseia” abandona a celebração do herói vitorioso e apresenta Odisseu como o arquiteto involuntário do próprio infortúnio. Depois de dizimar os pretendentes que humilhavam sua família em Ítaca, o protagonista não encontra trono nem paz: é obrigado a deixar a ilha, levando Penélope para um exílio sem rota certa. A partida sela a mensagem central do filme — o mundo que existia sob o comando da xenia, a lei da hospitalidade grega, chegou ao fim, e o responsável direto por esse colapso é o homem que deveria simbolizar engenhosidade e honra.

Ao reelaborar o mito, a produção desloca o foco do retorno vitorioso para a culpa, convertendo a viagem em um epitáfio da Idade do Bronze. Cada escolha de Odisseu revela que a astúcia que venceu Troia também rasgou o tecido moral que mantinha unidos povos separados por ilhas, rotas traiçoeiras e divindades caprichosas. A seguir, entenda os pilares dramáticos que estruturam esse final amargo e profundamente humano.

A lei de hospitalidade como eixo dramático

A xenia, traduzida como hospitalidade sagrada, sustentava a convivência entre anfitriões e forasteiros na Grécia antiga. No longa, ela ganha o nome de “Lei de Zeus”, deixando claro que não se trata apenas de etiqueta social, mas de mandamento divino. Oferecer abrigo, alimento e proteção a quem chega era, portanto, tão obrigatório quanto devolver o favor com respeito e moderação. A própria família de Odisseu personifica esse código: Penélope e Telêmaco tratam os visitantes com cortesia mesmo quando os pretendentes abusam do conforto alheio, acumulam riquezas da casa e zombam da ausência do rei.

Esse contraste — cortesia versus abuso — serve de régua moral por todo o roteiro. Quem preserva a xenia é visto como herdeiro de uma era de honra; quem a viola antecipa o caos que virá.

A culpa que nasce em Troia

A vitória grega em Troia não aparece como façanha gloriosa, mas como ponto zero de uma espiral de horror. Odisseu concebe o Cavalo de Troia, um “presente” que simula homenagem aos troianos e, na prática, esconde soldados no ventre de madeira. Ao transformar hospitalidade em armadilha, ele profana o maior pacto social de sua cultura. A sequência seguinte explicita as consequências: pilhagem, incêndios, assassinatos, profanação de templos e cadáveres espalhados pelas ruas.

O roteiro sugere que nenhum deus precisaria amaldiçoá-lo; a sentença nasce no próprio coração do herói, incapaz de conciliar a consciência com o estrago provocado. O Cavalo deixa de ser estratégia militar e vira símbolo de ruptura moral. Daí em diante, cada tormenta ou contratempo marítimo que atrasa seu retorno é lido por ele como punição merecida.

Visões, deuses e trauma

No caminho de volta, Odisseu recebe aparições de Atena. A deusa, porém, surge com o rosto de uma sacerdotisa morta durante a invasão a Troia, a mesma que ele não conseguiu proteger. Ao humanizar a entidade, o filme embaralha fronteiras entre divino e psicológico, reforçando a tese de que os “deuses” podem ser vozes internas de quem não consegue calar o remorso.

A decisão dramática ecoa debates modernos sobre estresse pós-traumático: em vez de raios vindos do Olimpo, vemos memórias intrusivas, alucinações e lapsos de realidade que esmagam o protagonista. O herói da rapsódia homérica torna-se alguém à beira do colapso, perseguido por rostos que queimam mais que qualquer cicatriz de batalha.

Quando a xenia desaba

Antes mesmo de aportar em Ítaca, Odisseu testemunha exemplos do declínio da hospitalidade: Polifemo, o ciclope que devora visitantes; Circe, que transforma homens em animais; aldeias que encaram viajantes como ameaça a ser extorquida. Se a Grécia de Homero ainda colecionava exceções, o filme pinta um quadro de contagioso niilismo. Ao enganar Troia, acredita Odisseu, ele mostrou ao mundo que vale tudo para vencer; o resto apenas seguiu a cartilha.

Parada obrigatória: a ilha do ciclope

  • Odisseu e tripulantes oferecem vinho ao gigante esperando ser bem recebidos;
  • Polifemo ignora qualquer pacto, arranca as cabeças dos hóspedes e as devora;
  • A cena espelha Troia — um presente dado com intenção oculta, agora invertido contra o próprio grego.

A volta para Ítaca e o acerto de contas

O reencontro com a esposa não oferece trégua. Ítaca virou antônimo da lei de hospitalidade: pretendentes devoram rebanhos, violentam criados e pressionam Penélope a escolher novo marido. Disfarçado de mendigo, Odisseu observa a degradação, conclui que a praga que soltou em Troia chegou à sua casa e executa uma vingança sangrenta. Nenhum invasor sobrevive.

A matança, em vez de catarse, funciona como julgamento final. Ao tomar a vida de cada abusador, o herói reconhece que eles apenas se espelharam no gesto que ele próprio perpetrou anos antes. Por isso, a celebração clássica — o reencontro amoroso brindado pelos deuses — dá lugar a um veredito político: Ítaca não aceita mais coroar o assassino que se fez rei. Chefes locais impõem o exílio como restauração mínima de justiça.

Exílio, amor e presságio de escuridão

Penélope decide abandonar o trono para seguir o marido. O roteiro sugere que a escolha não é submissão, mas reconhecimento de que, sem xenia, a monarquia perece e o legado do casal encontra-se em ruínas. A união, portanto, persiste, mas sobre um terreno devastado.

O adeus à Idade do Bronze

Em diálogo tocante, Odisseu e Penélope mencionam rumores de que o mundo civilizado vai mergulhar em trevas: rotas comerciais se romperão, palácios arderão e até a escrita desaparecerá. O prognóstico alude ao colapso histórico que, por volta de 1200 a.C., varreu palácios micênicos, impérios hititas e cidades cananeias. Ao conectar mito e arqueologia, o filme amplia a tragédia: não é apenas o casal que deixa para trás uma Ítaca doente; é toda uma ordem que se desfaz, levando com ela alfabetos, arquivos e memórias.

Nas imagens finais, o barco corta um mar turvo, sem vento favorável, sem bandeira que o reclame. A jornada que começa não pretende redimir; apenas estabelece que certas culpas não cabem dentro de muralhas reconstruídas. Odisseu atravessa o horizonte sabendo que o engenho que celebraram em Troia foi também a faísca que incendiou o próprio mundo. Penélope, ao seu lado, torna-se testemunha de que o amor, embora resiliente, não consegue dobrar a história — só acompanhá-la até onde houver mar.

André Nascimento é redator especializado em entretenimento, com foco em filmes, séries, plataformas de streaming e cultura pop. No FefeNews, acompanha os principais lançamentos do cinema e da televisão, produzindo conteúdos informativos, análises e notícias sobre produções nacionais e internacionais. Seu compromisso é oferecer informações precisas, atualizadas e relevantes para os leitores apaixonados pelo universo do entretenimento.